Prólogo da obra O Mistério-Bufo, de Vladímir Maiakóvski


Nestes días de forte vaga conservadora e filofascista resulta gratificante retornar á lectura de poetas revolucionarios como o ruso Vladímir Maiakóvski, de quen xa eu tiña algún libro de versos nos meus andeis cando andaba polos dezasete anos e espertaba á conciencia crítica. Contarei unha anécdota daqueles anos: despois de recibir un premio literario entrevistoume unha escritora (non direi o nome porque é persoa que estimo) que daquela estaba a colaborar como correspondente para a edición comarcal do xornal La Voz de Galicia, se mal non lembro nesa altura dependía de Santiago e non de Carballo, e ao me preguntar polos meus poetas preferidos non dubidei en citar Maiakóvski, que na prensa por mala anotación ou por gralla foise converter nunha tal María Kóvski. Boa piada.
Ben, o caso é que veño de (re)descubrir na Revista Cult, unha publicación dixital que se presenta como «jornalismo cultural independente e crítico e a mais inteligente revista de cultura do Brasil», o teatro en verso de Vladímir Maiakóvski que se vén de traducir para o português e vai publicar Editora 34. Trátase da obra O Mistério-Bufo, cuxo prólogo adiantan na versión de Arlete Cavaliere (tradutora tamén do teatro de Nikolai Gógol) e que reproduzo deseguida porque ten moitísima actualidade social:
Prólogo
UM IMPURO
Dentro de um minuto
Vocês vão ver…
Mistério-bufo.
Duas palavras devo dizer:
é algo novo.
Para dar um pulo mais alto que a cabeça
é necessária a ajuda de alguém.
Diante de uma nova peça
um prólogo sempre vai bem.
Primeiro,
por que o teatro está todo revirado?
Isto vai deixar
os bons cidadãos muito indignados.
Ora, para que se vai ao teatro?
Para ter algum prazer, é fato.
Mas esse prazer é suficiente
se ele está no palco somente?
O palco é apenas um terço do todo.
Quer dizer,
num espetáculo interessante,
se tudo se faz bem,
três vezes prazer você tem,
mas agora,
se não é interessante o que se vê em cena
então nem um terço
vale a pena.
Para os outros teatros
representar não é importante:
para eles o palco é
o buraco da fechadura.
Sentado, calado, passivo,
de frente ou de banda,
você espia a vidinha alheia.
Espia e vê
cochichar no sofá
tias Machas e tios Vânias.
A nós não interessam
nem tios nem tias,
tia e tio você tem em casa.
Nós também vamos mostrar a vida real,
mas transformada
num extraordinário espetáculo teatral.
No primeiro ato é o seguinte o essencial:
a terra está pingando.
Depois há um estrondo.
Todos fogem do dilúvio revolucionário.
Sete pares de impuros
e de puros sete pares.
Isto é,
catorze proletários-indigentes
e catorze senhores burgueses,
e, no meio deles,
um menchevique com um par de bochechinhas chorosas.
O polo inunda.
Desmorona o último refúgio.
E todos começam a construir
não uma arca,
mas uma arquefúgio.
No segundo ato
o público todo viaja na arca:
lá vai a monarquia absoluta,
e a democrática república,
e, por fim,
sob os altos brados mencheviques
os puros são postos mar afora.
No terceiro ato vai se ver
que o trabalhador
não tem nada a temer
nem mesmo o diabo no inferno a tremer.
No quarto
ria até rachar!
o paraíso vamos desvendar.
O quinto ato é a ruína completa
e boquiaberta
arruína, devora.
Apesar de trabalharmos com a pança vazia,
a ruína foi enfim por nós vencida.
O sexto ato
é a comuna,
a sala toda
aos berros uma canção entoa tão bem!
Abram bem os olhos, hein!
Tudo pronto?
O inferno?
O paraíso?
Atrás do palco.
P r o n t o!
Manda ver!
Tradução de Arlete Cavaliere

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