Na revista cultural brasileira Musa Rara. Literatura e Adjacèncias (São Paulo), versionado polo poeta e ensaísta João Rasteiro


(De esquerda a dereita, eu, o poeta brasileiro Márcio-André e o poeta portugués João Rasteiro. A fotografia propositadamente divertida é da poeta brasileira Karinna Alves Gulias tirada nun café de Coimbra en marzo do 2009)
Musa Rara. Literatura e Adjacèncias é unha revista cultural brasileira, de São Paulo, que se edita na rede, en formato on line aberto, cuxo Editor-geral é Edson Cruz.
Até onte mesmo nada sabía da súa existencia e o seu coñecemento vén da man do amigo poeta e ensaísta João Rasteiro (Coimbra, 1965), un autor da miña mesma anada, a quen coñecín na súa cidade nos Encontros Internacionais de Poetas e que “traduziu para o português vários poemas meus”, aínda que eu diría “adaptou” pola proximidade lingüística.
Neste último número de Musa Rara publica a súa versión ao português dunha pequena escolla de poemas da miña autoría, labor que xa fixera con anterioridade na súa propia bitácora nocentrodoarco, tal e como aquí se contou e que, coma daquela, agradecemos inmenso.
Desta volta, alén do poema «Negación de Ulises e Teseo», tamén versiona «Adán desexa morrer no paraíso de Eva» e «Os meus zapatos», todos tres do libro Equinoccio de primavera (Esquío, 1998); «Dioni», «Che», «Cama de Piedra» e «Quiñón» de Gameleiros (Xerais, 2002) e «Pont-Aven», «Pont-Aven (1886-1894)» e «Pont-Aven (2007)» do aínda inédito Breizh, que axiña vai publicar Toxosoutos.
Deseguida reproduzo esas versións ao português do João Rasteiro, quen tamén traduciu a poetas como Harold Alvarado Tenorio, Juan Carlos Garcia Hoyuelos ou Juan Armando Rojas Joo.
ADÃO DESEJA MORRER NO PARAÍSO DE EVA
Na laranja que filtram os teus braços
quando me fazes entrar no teu domínio
nos peros onde desagua o meu desígnio
oculto como o mar e os seus sargaços,
nas maçãs do pecado, nos abraços,
anseio ser Adão, sem raciocínio,
no pêssego sugado em condomínio,
desejo até morrer granizo em pedaços.
no líquido açucarado que me dás,
que bebo pouco a pouco, com agrado
pois acorda-me o odor de uma begónia,
na laranja, nos peros, nas maçãs,
no pêssego e no líquido açucarado
anseio o teu sabor de macedónia.
OS MEUS SAPATOS
Aqueles meus sapatos que antigamente
foram lustrosos, húmidos um dia
de tanto andarem sós, sem alegria,
amolecendo bolhas continuamente,
aqueles meus sapatos, na aurora
molhados de amargura, da dor mais fria,
e gastos de insana melancolia,
já são sapatos novos agora,
deram em recuperar o brilho antigo
ao aquecerem no lume permanente
das mãos pequenas, frágeis, imensas,
poderosas no amor, no seu abrigo,
aqueles meus sapatos, de repente,
descobriram as coisas mais intensas.
NEGAÇÃO DE ULISSES E TESEO
Se alguma vez tivesses que aguardar entre fio
e tecidos, não sejas Penélope que tece
e destece os bordados assim que anoitece.
Ulisses não existe, foi verso fugidio.
Se alguma vez tivesses que aguardar entre fio
e tecidos, não sejas Ariadna que oferece
sair do labirinto mortal a quem a esquece.
Teseo não existe, só sobra o desafio.
Se alguma vez eu tiver de partir como Odiseo
prefiro voltar sempre vencido a Compostela.
Não me importa a derrota se tu me identificas.
Se alguma vez eu tiver de marchar como Teseo
não há-de ser Artemisa fluxo do meu Sarela.
Não me importa ser lama se tu me purificas.
“DIONI”
Em cada marinheiro dorme um ser mitológico,
com dois potentes braços que na extremidade
se bifurcam em oito tentáculos ventosos,
e quando no horizonte sopra a voz do perigo
despertam oito braços apegando-se à vida.
“CHE”
No deserto que somos qualquer pescador
é homem que multiplica peixe e pão para os seus,
em completo silêncio reinventa o evangelho
segundo São Mateus. Nunca haverá cronistas
para darem noticia do milagre quotidiano.
“CAMA de PEDRA”
Os astutos olhos águias do marinheiro nunca
leram livros de Stevenson, Melville, London, Verne,
mas os dedos buliram em páginas de tinta
onde estavam escritas as marcas do mar, cofres
ocultos abertos pela chave do aparelho da vida.
“QUINHÃO”
As nuvens da incerteza ferindo como o sol,
sempre sois Ulisses, há sempre uma Penélope
que aguarda com tecidos. E Ítaca está distante
mesmo que fosse apenas uma maré de horas,
e Ítaca está distante mesmo que sempre regresses.
PONT-AVEN
São quinze as casas
e catorze os moinhos.
Mãos de pão de trigo.
PONT-AVEN (1886-1894)
Nada perdura
selvagem e primitivo.
Foge Paul Gauguin.
PONT-AVEN (2007)
Mercado da arte,
Paul Gauguin enche crepes,
rara atmosfera.
(Trad. João Rasteiro)

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